{"id":381,"date":"2019-10-23T09:36:37","date_gmt":"2019-10-23T13:36:37","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.law.columbia.edu\/critique1313\/?p=381"},"modified":"2019-10-30T16:51:57","modified_gmt":"2019-10-30T20:51:57","slug":"alessandra-vannucci-augusto-boal-o-teatro-como-ferramenta-para-criar-uma-comunidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.law.columbia.edu\/critique1313\/alessandra-vannucci-augusto-boal-o-teatro-como-ferramenta-para-criar-uma-comunidade\/","title":{"rendered":"Alessandra Vannucci | Augusto Boal. O Teatro como ferramenta para Criar uma Comunidade (Vers\u00e3o em Portugu\u00eas)"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Alessandra Vannucci<\/strong><\/p>\n<p>A fama do Boal consagrou-se internacionalmente na d\u00e9cada de 70, com o livro <em>Teatro do Oprimido e outras est\u00e9ticas pol\u00edticas<\/em>, traduzido em v\u00e1rias l\u00ednguas, escrito quando o diretor trilhava caminhos experimentais na pr\u00e1tica de um teatro que tentava superar modalidades caracter\u00edsticas de sua produ\u00e7\u00e3o engajada da d\u00e9cada de 60. Ao inv\u00e9s que como \u201cteatro pol\u00edtico\u201d Boal come\u00e7ou a entender seu trabalho como uma multiplica\u00e7\u00e3o de ferramentas \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da luta pol\u00edtica. A escrita de livros e pe\u00e7as de forte cunho autobiogr\u00e1fico (como <em>Torquemada<\/em>, 1971) acionou a op\u00e7\u00e3o por t\u00e1ticas n\u00e3o violentas de luta que surgiram, inicialmente, neste momento da vida do Boal, como alternativas \u00e0 pegada em armas contra regimes totalit\u00e1rios, em primeiro lugar contra a ditadura militar que o aprisionou, torturou e exilou em 1971. Ao inv\u00e9s que um repert\u00f3rio de obras, Boal come\u00e7ou a acumular um acervo de t\u00e9cnicas; propriamente, um arsenal de armas teatrais que poderiam ser usados por classes e grupos oprimidos. O arsenal do Teatro do Oprimido foi agregando novas t\u00e9cnicas e variantes durante o ex\u00edlio do Boal em pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e da Europa, em contato com diversos modos de opress\u00e3o e em di\u00e1logo com diversas pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas e propostas conceituais contempor\u00e2neas. Entre estas, foi fundamental o di\u00e1logo do Boal com a Pedagogia dos Oprimidos do compatriota, tamb\u00e9m exilado, Paulo Freire, publicado em 1970 e traduzido em v\u00e1rias l\u00ednguas. Assim como a educa\u00e7\u00e3o freiriana para a liberdade, a metodologia do Boal se fundamenta na compreens\u00e3o de que processos de socializa\u00e7\u00e3o humana (tais como instru\u00e7\u00e3o, informa\u00e7\u00e3o, institucionaliza\u00e7\u00e3o) incorporam condutas induzidas ou impostas por dispositivos hegem\u00f4nicos (tais como escola, m\u00eddia, estado) que tendem a inibir a subjetividade e a mecanizar os corpos. Sendo a sociedade por si s\u00f3 opressora, \u00e9 essencial que pessoas oprimidas recuperem sua autonomia e humanidade para se libertarem.\u00a0 A arte surge como um poss\u00edvel rem\u00e9dio, melhor, um antidoto capaz de despertar a vontade de subjetiva\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o em pr\u00e1ticas de conviv\u00eancia que valorizem a busca por novas formas de aprendizagem e transmiss\u00e3o do saber. A luta de liberta\u00e7\u00e3o tem por meio a emancipa\u00e7\u00e3o da pot\u00eancia est\u00e9tica de cada pessoa, para que se subjetive (e n\u00e3o mais se sujeite); tem por fim a mudan\u00e7a da realidade (n\u00e3o a arte em si). Boal declara que cidad\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aquele que vive na cidade, mas aquele que a transforma; artista \u00e9 todo e qualquer cidad\u00e3o que, partilhando os seus meios de produ\u00e7\u00e3o, faz da arte um instrumento de cidadania. O arsenal de t\u00e9cnicas que Boal veio dotando, em seus livros sucessivos, de um arcabou\u00e7o te\u00f3rico indissol\u00favel da pr\u00e1tica libert\u00e1ria que o alimenta, \u00e9 uma plataforma para a explora\u00e7\u00e3o concreta de utopias.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo de fato \u00e9 aplicado por milh\u00f5es de pessoas nos cinco continentes como ferramenta de luta pol\u00edtica e de transforma\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios sociais. No panorama das artes, destaca-se por ser metodologia inclusiva, acess\u00edvel a qualquer pessoa sem nenhum pr\u00e9-requisito, apropriada por comunidades militantes e estudada nas universidades; o destaque, por\u00e9m diz respeito \u00e0s suas prerrogativas pedag\u00f3gicas, muito mais que ao seu diferencial est\u00e9tico. Neste campo, a consagra\u00e7\u00e3o do Boal coincidiu com certa cristaliza\u00e7\u00e3o como objeto de estudo \u201cdatado\u201d aos seus feitos no teatro pol\u00edtico da d\u00e9cada de 60. Entretanto, nas d\u00e9cadas sucessivas e coincidindo com seu longo ex\u00edlio, o m\u00e9todo evoluiu articulando-se com a reflex\u00e3o est\u00e9tica a ele contempor\u00e2nea, marcada pela insurg\u00eancia (ou ressurgimento) de um pensamento inconformado com a ordem vigente. Pensamos por um lado, na experi\u00eancia de artistas como Helio Oiticica e Richard Schecner no ambiente da contra-cultura nova-iorquina (onde Boal encontrou o primeiro em 1971 e frequentou o segundo ao longo das d\u00e9cadas seguintes) que valorizam, mais que o produto-obra, os processos de intera\u00e7\u00e3o humana provocados pela sua execu\u00e7\u00e3o (<em>performance<\/em>) de tal modo que a rela\u00e7\u00e3o perceptiva e cognitiva entre criadores e espectadores se torna mais essencial do que a obra em si. Tal entendimento amplia o campo das artes pl\u00e1sticas e c\u00eanicas em um regime est\u00e9tico que podemos (com Nicholas Bourriaud) descrever como \u201crelacional\u201d, ou seja, capaz de gerar novas formas de subjetiva\u00e7\u00e3o, de rela\u00e7\u00e3o social e de comunidade. Pensamos tamb\u00e9m no resgate de experi\u00eancias sinest\u00e9sicas que haviam sido drasticamente reduzidas com a afirma\u00e7\u00e3o da cultura textocentrica na modernidade, seja no teatro como em outras artes; redu\u00e7\u00e3o que do ponto de vista atual pode ser tachada de \u201cdesvio epistemol\u00f3gico\u201d (com Jacques Ranci\u00e8re). Estes dois pontos, o deslocamento do interessa da obra para a rela\u00e7\u00e3o por ela provocada (1) e a expans\u00e3o da a\u00e7\u00e3o teatral ao campo sinest\u00e9sico, invocando um regime sens\u00edvel acess\u00edvel a qualquer pessoa, mesmo iletrada (2) s\u00e3o caracter\u00edsticas que destacam o percurso art\u00edstico do Boal no ex\u00edlio e ap\u00f3s o seu retorno ao Brasil em 1986. Al\u00e9m disso Boal, durante e ap\u00f3s sua perman\u00eancia na Fran\u00e7a na d\u00e9cada de 80, possivelmente sintonizado com o pensamento estruturalista, aprofundou sua reflex\u00e3o te\u00f3rico-pr\u00e1tica sobre as fun\u00e7\u00f5es da arte e dos artistas na sociedade do espet\u00e1culo. No livro <em>Est\u00e9tica do Oprimido\u00a0<\/em>(publicado no Brasil em 2009 e quase contemporaneamente em ingl\u00eas, franc\u00eas e italiano) Boal aborda os \u201cregimes de controle\u201d (sistema financeiro, midi\u00e1tico, econ\u00f4mico) que descreve como interconexos e \u00e0 servi\u00e7o do imp\u00e9rio. Fazendo da arte uma ind\u00fastria, o imp\u00e9rio invade n\u00e3o mais territ\u00f3rios, mas c\u00e9rebros; monopoliza desejos e inibe a criatividade dos indiv\u00edduos, com objetivo de degrada-los a consumidores. Mesmo valendo o alerta da escola de Frankfurt (especialmente Horkeimer\/Adorno) quanto ao uso que regimes totalit\u00e1rios (o fascismo, como a ind\u00fastria cultural) fazem das artes mim\u00e9ticas, Boal n\u00e3o se alinha \u00e0 negatividade adorniana; vale dizer, n\u00e3o teoriza o fim da arte, uma vez reduzida a mercadoria. Pelo contr\u00e1rio, afirma a necessidade de reivindicar a arte como linguagem ainda capaz de gerar comunidade e de subverter estados de opress\u00e3o. A proposta \u00e9 urgentemente autobiogr\u00e1fica, j\u00e1 que explica a op\u00e7\u00e3o do artista pela arte como um modo de milit\u00e2ncia pol\u00edtica e sua ren\u00fancia ao profissionalismo art\u00edstico e \u00e0s prerrogativas da autoria, que resulta ser exclusiva quando depende do mercado. Mas a proposta tamb\u00e9m tem impacto te\u00f3rico, j\u00e1 que redefine a fun\u00e7\u00e3o dos artistas e revigora as rela\u00e7\u00f5es entre arte e utopia. Como Boal dialoga indiretamente com fil\u00f3sofos que pensam tais rela\u00e7\u00f5es (como Foucault, Guy D\u00e9bord, Hakim Bay, Ranci\u00e8re) com a diferen\u00e7a dele ser um artista? Como Boal se p\u00f5e em rela\u00e7\u00e3o a artistas cujo trabalho foca tais rela\u00e7\u00f5es (como Artaud, Brecht) com a diferen\u00e7a dele ser latino-americano? E ainda, qual o diferencial da participa\u00e7\u00e3o do Boal no movimento de educa\u00e7\u00e3o popular latino-americana (com Paulo Freire, Darcy Ribeiro)? Tentando responder, vou repropor algumas ideias do Boal que se p\u00f5em ao mesmo tempo como t\u00e9cnicas de cria\u00e7\u00e3o e como conceitos que revolucionam conven\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas consolidadas.<\/p>\n<p>Desde suas primeiras experi\u00eancias de teatro \u201cfora dos teatros\u201d, ou seja, \u00e0 margem dos edif\u00edcios dados ao consumo de espet\u00e1culos, Boal rompe com a ideia de que algu\u00e9m possa estar exclu\u00eddo da autoria criativa e reduzido em sua experi\u00eancia est\u00e9tica. N\u00e3o se trata apenas de estabelecer, enquanto artista, novas fun\u00e7\u00f5es para o espectador, mas de eliminar o conceito de \u201cespectador\u201d como algu\u00e9m coagido \u00e0 passividade e reduzido \u00e0 mera fun\u00e7\u00e3o contemplativa pela convencional separa\u00e7\u00e3o entre palco e plateia que, nos edif\u00edcios teatrais, j\u00e1 afasta o p\u00fablico da fun\u00e7\u00e3o criadora. Se trata de reivindicar uma nova partilha est\u00e9tica: n\u00e3o haver\u00e1 ent\u00e3o, \u201cartistas\u201d e n\u00e3o artistas\u201d ou seja, atores e espectadores mas sim, um coletivo de <em>espect-atores<\/em>. Incorporando o sonho de Artaud para um teatro \u201csem espectadores\u201d (que evidentemente n\u00e3o significa uma plateia de cadeiras vazias) o ritual\/jogo que transforma ator em personagem, realidade em fic\u00e7\u00e3o, inclui todos os participantes e destitui os artistas da posse exclusiva sobre autoria. No jogo, como Boal define, assim como no ritual (descrito por antrop\u00f3logos que estudam comportamentos espetaculares, como Turner e Schecner), o modo de atua\u00e7\u00e3o (<em>performance<\/em>) dos participantes n\u00e3o \u00e9 definido por conte\u00fados dados (mesmo que haja uma liturgia ou as \u201cregras\u201d do jogo) mas pelo ato de \u201cjogar-se\u201d dos jogadores. Esta experi\u00eancia de entrar-em-jogo transforma n\u00e3o somente o jogo, como o pr\u00f3prio jogador. A m\u00e1quina fechada e implac\u00e1vel do drama (onde algu\u00e9m oprimido tenta em v\u00e3o modificar a situa\u00e7\u00e3o que o oprime) se abre; a pe\u00e7a experimenta e absorve a transforma\u00e7\u00e3o que provoca; sua escrita se d\u00e1 em cena, atrav\u00e9s de seguidas variantes nas quais a criatividade de cada participante se expressa partilhando a autoria daquele encontro. \u00c9 o que acontece na t\u00e9cnica do <strong>Teatro-Forum\u00a0<\/strong>(proposta no Peru em 1973, quando Boal se encontrava engajado em campanha de alfabetiza\u00e7\u00e3o popular diretamente inspirada na pedagogia freiriana). Na pr\u00e1tica, ap\u00f3s uma primeira parte na qual atores encenam um drama premeditado, h\u00e1 uma segunda parte na qual espectadores entram em cena nos panos de um ou outro personagem, com poder de modificar a sua atua\u00e7\u00e3o para tentar resistir ou at\u00e9 mesmo vencer as opress\u00f5es que os participantes percebem naquele contexto. Ao entrar em cena, cada espectador ensaia sua pr\u00f3pria pot\u00eancia transformadora, ou seja, percebe-se capaz de mudar a realidade e n\u00e3o somente analisa-la, julg\u00e1-la e imaginar mudan\u00e7as ou, pelo contr\u00e1rio, aceita-la como est\u00e1 e viver nela passivamente. A for\u00e7a de transforma\u00e7\u00e3o das solu\u00e7\u00f5es propostas no jogo teatral \u00e9 probat\u00f3ria e pode ser transferida \u00e0 realidade; no entanto, a obra n\u00e3o pretende mudar diretamente a realidade nem dar conselhos ou ensinar outros a faz\u00ea-lo. Neste sentido especialmente, o jogo resulta estruturado por uma inten\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica freiriana. Pois, \u00e9 o pr\u00f3prio p\u00fablico de participantes que se interroga e decodifica aquela realidade em a\u00e7\u00e3o, analisando as condi\u00e7\u00f5es reais nas quais se d\u00e1 e nas quais nem sempre a opress\u00e3o est\u00e1 vis\u00edvel; podendo apresentar contradi\u00e7\u00f5es mesmo quando se torna evidente. Pois (como apontado por Freire, na esteira da reflex\u00e3o descolonial de Franz Fanon) o oprimido interioriza seu opressor e vive uma din\u00e2mica na qual pode exercer por sua vez opress\u00e3o; reconhecer tal duplicidade \u00e9 passagem indispens\u00e1vel de qualquer processo de emancipa\u00e7\u00e3o. No Teatro-Forum, a reflex\u00e3o coletiva \u00e9 conduzida por perguntas mai\u00eauticas por parte do \u201ccoringa\u201d, cuja fun\u00e7\u00e3o naquela assembleia repercute a rela\u00e7\u00e3o horizontal proposta por Freire para o docente entre discentes:\u00a0 trata-se de estimular a aprendizagem como percurso comum e interativo, no qual cada um aprende dos e com outros. Tal interatividade, transferida \u00e0 assembleia teatral, motiva a transitividade entre palco e plateia cancelando a dist\u00e2ncia entre \u201cartistas\u201d e \u201cn\u00e3o artistas\u201d \u2013 j\u00e1 que cada participante age alternadamente como ator\/espectador. O fato que um <em>espect-ator <\/em>entre em cena desloca o discurso no plano da a\u00e7\u00e3o: caso reconhe\u00e7a uma opress\u00e3o, o que cada um faria para super\u00e1-la? N\u00e3o necessariamente consegue, mas possivelmente se aproxima, somando sua interven\u00e7\u00e3o com a de outros <em>espect-atores<\/em>em um processo de cria\u00e7\u00e3o\/transforma\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de correi\u00e7\u00f5es sucessivas. \u00a0Assim, a t\u00e9cnica se prop\u00f5e como m\u00e9todo de aprendizagem coletiva: um movimento cognitivo n\u00e3o redut\u00edvel a mera did\u00e1tica. No livro <em>Teatro Legislativo<\/em>, Boal esclarece ser seu objetivo (citando Freire) uma \u201cmodalidade pol\u00edtica transitiva que proponha o di\u00e1logo, a intera\u00e7\u00e3o, a troca\u201d. \u00c9 evidente contudo, a proced\u00eancia do conceito dial\u00e9tico proposto por Bertolt Brecht nas pe\u00e7as de aprendizagem (<em>leherstrucke<\/em>), escritas como roteiros para interven\u00e7\u00f5es em sindicatos e escolas, visando estimular a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sem se utilizar de meios demag\u00f3gicos e panflet\u00e1rios. A proposta brechtiana (no \u00e2mbito do <em>agit-prop<\/em>, na Alemanha da d\u00e9cada de <em>20) visava\u00a0<\/em>organizar as massas atrav\u00e9s da multiplica\u00e7\u00e3o\/apropria\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Na pr\u00e1tica brechtiana, trabalhadores s\u00e3o ativados enquanto autores\/produtores de \u201crepresenta\u00e7\u00f5es do real\u201d para que aprendam a analisar um contexto de opress\u00e3o de diversos pontos de vista e tomem consci\u00eancia das mudan\u00e7as poss\u00edveis; j\u00e1 Boal (dando mais um passo) prop\u00f5e que espectadores entrem em cena e coloquem as mudan\u00e7as poss\u00edveis \u00e0 prova. Isso pode estar acontecendo em escolas, teatros, sindicatos etc. Da\u00ed a gigantesca expans\u00e3o da t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Como dissemos, a op\u00e7\u00e3o de Boal por compartilhar autoria intende valorizar o processo relacional, mais que a obra-fim; ou seja, fica evidente a vontade de provocar rela\u00e7\u00f5es que encetem processos de subjetiva\u00e7\u00e3o, opondo-se aos procedimentos que provocam separa\u00e7\u00e3o e sujei\u00e7\u00e3o, seja em institui\u00e7\u00f5es organizadas como em qualquer contexto assemblear. Diversamente de outras experi\u00eancias \u201crelacionais\u201d nas artes contempor\u00e2neas, que para se legitimarem enquanto arte dependem do sistema autoral e da exibi\u00e7\u00e3o em lugares can\u00f4nicos, como museus e galerias, nas pr\u00e1ticas acima citadas, cidad\u00e3os se fazem artistas pelo pr\u00f3prio ato de atuar\/criar, independente das hierarquias eventualmente sugeridas por assinaturas ou pela fama derivada. Por si s\u00f3, a pr\u00e1tica art\u00edstica inaugura espa\u00e7os radicalmente comuns, ou seja, convida para reuni\u00e3o de uma comunidade capaz de propiciar experi\u00eancias de emancipa\u00e7\u00e3o das formas de controle exercidas pelo Estado e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, pela pr\u00f3pria sociedade. Na t\u00e9cnica do <strong>Teatro Legislativo<\/strong>, desenvolvida por Boal a partir de 1992 na C\u00e2mera Municipal do Rio de Janeiro (ap\u00f3s o seu retorno em 1986, a convite de Darcy Ribeiro, Secret\u00e1rio de Cultura) instala-se, durante uma sess\u00e3o de Teatro-F\u00f3rum, uma mesa de verdadeiros assessores jur\u00eddicos que elabora propostas de lei a partir das interven\u00e7\u00f5es perform\u00e1ticas dos espectadores. O jogo reproduz o arcabou\u00e7o legal, com a diferen\u00e7a de devolver a palavra para o cidad\u00e3o-artista que, de fato, legisla, sem delegar este poder a ningu\u00e9m nem se submeter aos entraves burocr\u00e1ticos que viciam a democracia representativa. A sequ\u00eancia de a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sucessivas, interagindo com as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas reais, visam garantir continuidade \u00e0 luta para aqueles objetivos, podendo chegar a alcan\u00e7\u00e1-los, caso a lei proposta pela comunidade durante a sess\u00e3o teatral, seja enfim aprovada nas inst\u00e2ncias apropriadas do poder legislativo. Neste caso, o coletivo de <em>espect-atores<\/em>forma uma TAZ, uma \u201czona aut\u00f4noma tempor\u00e1ria\u201d (citando os situacionistas e suas t\u00e1ticas libert\u00e1rias, como D\u00e9bord e Hakim Bey) em que a comunidade produz sua an\u00e1lise das disciplinas em vigor e prop\u00f5e mudan\u00e7as na forma de a\u00e7\u00f5es eficazes que instigam a desconstru\u00e7\u00e3o e reinven\u00e7\u00e3o de normas que legitimem outras formas de ver e viver o mundo. Atrav\u00e9s da rela\u00e7\u00e3o que provoca e estrutura pedagogicamente, a arte reinventa o mundo \u2013 pois se prop\u00f5e como dimens\u00e3o perceptiva paralela marcada por caracter\u00edsticas ideais de conviv\u00eancia tais como isonomia, livre-express\u00e3o, n\u00e3o-viol\u00eancia; dimens\u00e3o plenamente participativa da qual a assembleia teatral \u00e9 concreta manifesta\u00e7\u00e3o. Entende-se a pujan\u00e7a ut\u00f3pica desta ideia (que se manteve como pr\u00e1tica do Mandato Pol\u00edtico Teatral do Boal, produzindo um grande n\u00famero de leis e se mant\u00e9m at\u00e9 hoje, mesmo em mudadas condi\u00e7\u00f5es) na plena inser\u00e7\u00e3o do Boal no vasto movimento de educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica popular instalado no Brasil pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Nela reside o diferencial latino-americano do Boal (sua capacidade de ser \u201cnovo\u201d, no sentido de ousado e l\u00fadico ao mesmo tempo) na atualiza\u00e7\u00e3o de propostas do movimento libert\u00e1rio de 68, trinta anos mais tarde e em uma na\u00e7\u00e3o que viveu 68 muito mais como luta de resist\u00eancia ao regime tir\u00e2nico instalado sobre corpos, do que como liberta\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio. Empregando um conceito lan\u00e7ado por Foucault em 1968, ao definir o ambiente na qual a imagina\u00e7\u00e3o tomaria o poder, a assembleia revolucion\u00e1ria seria \u201cut\u00f3pica\u201d n\u00e3o no sentido de algo inexistente, mas de algo \u201cconcreto para al\u00e9m de todos os lugares reais, embora efetivamente localiz\u00e1vel\u201d. A assembleia reinventa o espa\u00e7o real em uma dimens\u00e3o perceptiva onde a realidade se d\u00e1 como \u00e9 e, contemporaneamente, como poderia ser: \u00e9 um ant\u00eddoto, uma \u201ccontra localiza\u00e7\u00e3o\u201d ou <em>heterotopia\u00a0<\/em>(como a batiza Foucault em di\u00e1logo com os situacionistas e com Lefevbre) ou seja uma \u201cutopia efetivamente realizada, na qual as normas reais s\u00e3o ao mesmo tempo representadas, contestadas e subvertidas\u201d. Me parece que a assembleia teatral legislativa proposta por Boal \u00e9 uma poss\u00edvel manifesta\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica desta proposta de democracia que buscando realizar (mesmo que de modo ef\u00eamero e experiencial) a utopia da participa\u00e7\u00e3o universal, recusa o regime representativo (nas artes, como na pol\u00edtica). N\u00e3o devemos esquecer a insistente paix\u00e3o com que Boal descreve o surgimento da <em>polis<\/em>, com tais caracter\u00edsticas de assembleia universalmente participativa (na <em>agor\u00e1\u00a0<\/em>grega) como algo paralelo e vinculado ao surgimento do teatro (cuja etimologia do grego sugere um lugar <em>teatron <\/em>para que a comunidade \u201cse veja\u201d). Diremos ent\u00e3o (com Ranci\u00e8re, no <em>Desentendimento<\/em>) que a pr\u00f3pria democracia em sua origem \u00e9 uma <em>heterotopia\u00a0<\/em>pois prev\u00ea e permite a irrup\u00e7\u00e3o da multid\u00e3o (<em>oi polloi<\/em>) na assembleia p\u00fablica (<em>agor\u00e1<\/em>), dando visibilidade ao que era invis\u00edvel, voz ao que n\u00e3o era ouvido. O deslocamento dos corpos no espa\u00e7o urbano aparelhado (at\u00e9 mesmo arquitetonicamente) pelas hierarquias hegem\u00f4nicas subverte o fluxo ordenado da representa\u00e7\u00e3o do poder agenciando a tomada da palavra por parte de quem n\u00e3o tem parte no comum: dos que s\u00e3o subalternos, oprimidos, escravizados, condenados ao sil\u00eancio e a passividade; este deslocamento de corpos com tomada da palavra \u00e9 ato fundador da democracia. E como n\u00e3o reconhecer uma sua aplica\u00e7\u00e3o l\u00fadica e ut\u00f3pica no deslocamento dos <em>espect-atores<\/em>que entram em cena no Teatro-Forum?<\/p>\n<p>Pois, mais do que se perguntar como o oprimido pode falar (reformulando, para concluir, a pergunta da Gayatri Spivak, 1992) o Teatro-Forum indaga como pode ser ouvido, sem recorrer a viol\u00eancia cujo resultado pode ser o de provocar novas hierarquias tir\u00e2nicas. A \u201cfic\u00e7\u00e3o verdadeira\u201d que o teatro oferece \u00e9 uma resposta, n\u00e3o s\u00f3 do Boal. \u00a0Ranci\u00e8re sublinha o poder cognitivo exercido pelo deslocamento dos sem parte na <em>agor\u00e1<\/em>, que desvela aos olhos de todos o desentendimento, a disc\u00f3rdia na base dos regimes de opress\u00e3o e denuncia sua total aus\u00eancia de fundamentos. Independentemente dos resultados pol\u00edticos que alcan\u00e7a, o deslocamento ent\u00e3o representa algo irrepresent\u00e1vel, ou seja, a mera conting\u00eancia de qualquer ordem social. \u00c9 a cena da verdade (no sentido do \u201cdizer verdadeiro\u201d dado por Foucault no <em>Governo de si e dos outros<\/em>) da qual s\u00e3o atores as v\u00edtimas quando colocam em risco sua pr\u00f3pria exist\u00eancia para exercer o direito de <em>parresia <\/em>ou \u201cfala franca\u201d (<em>dire vrai<\/em>) diante do tirano que n\u00e3o pode impedir tal manifesta\u00e7\u00e3o mesmo que seja a \u00faltima, como no caso de Antigone. A fala franca \u00e9 uma \u201cret\u00f3rica dram\u00e1tica do discurso\u201d que transforma inexoravelmente quem o pronuncia, assim como quem o ouve: pois irrompe na cena p\u00fablica, subverte os discursos estabelecidos e visualiza as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a nos corpos, colocando todos os presentes em estado de alerta e risco. \u00c9 algo diferente do ato de palavra praticado pelo poder em suas representa\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas (<em>speech act <\/em>do tipo:\u201ca sess\u00e3o est\u00e1 aberta\u201d, \u201ceu te batizo\u201d) cujos efeitos s\u00e3o previs\u00edveis; ao inv\u00e9s disso, a fala francatem efeitos imprevis\u00edveis, como a fala de Cord\u00e9lia que estabelece um pacto inaudito entre a \u00faltima filha e o todo poderoso Rei\/pai (\u201ca sua verdade seja ent\u00e3o seu dote\u201d ele responde, mostrando n\u00e3o ter alternativa a n\u00e3o ser aceitar e escutar aquela que menos tem palavra). O ato expande o corpo de quem o realiza: amplifica a sua voz: faz com que seja imposs\u00edvel n\u00e3o o ouvir; neste sentido, o corpo adquire um comportamento <em>perfomativo\u00a0<\/em>(dan\u00e7a, canta, veste m\u00e1scaras ou adota posturas eloquentes): torna-se (mesmo que por um instante s\u00f3) um corpo espetacular. Foucault exemplifica o modo ef\u00eamero e espetacular desta atua\u00e7\u00e3o no comportamento do fil\u00f3sofo c\u00ednico que ao agir seu protesto em p\u00fablico \u201cfaz de seu corpo um teatro da verdade\u201d mesmo que isso lhe custe imediatamente a vida. Esta teatraliza\u00e7\u00e3o do corpo tem outro objetivo: o de potencializar e transfigurar o sentido daquele protesto no espa\u00e7o pol\u00edtico \u2013 por isso Foucault convoca a magn\u00edfica imagem de um <em>corp utopique<\/em>. Mesmo que se valha de procedimentos teatrais trata-se, evidentemente, de mais do que uma atitude art\u00edstica, mas de uma atitude que resgatando a que talvez seja a ess\u00eancia do teatro (um espelho para que todos os participantes se observem: <em>teatron<\/em>), demanda a refunda\u00e7\u00e3o de uma comunidade. A metodologia do Boal e seu longo debate filos\u00f3fico sobre as fun\u00e7\u00f5es da arte e dos artistas (para que serve, a quem serve o teatro?) parece experimentar na pr\u00e1tica esta reconquista da ess\u00eancia pedag\u00f3gica (no sentido freiriano) das artes mim\u00e9ticas, como ant\u00eddoto cognitivo ao uso manipulador que delas fazem os regimes hegem\u00f4nicos. O teatro como a\u00e7\u00e3o cultural para a liberdade. O teatro como ferramenta de emancipa\u00e7\u00e3o da comunidade. A capilaridade da rede mundial do TO, sua presen\u00e7a expansiva incompar\u00e1vel a qualquer outra metodologia teatral que possa reunir um ou outro grupo art\u00edstico expressivo, em algum momento da hist\u00f3ria recente pareceu realizar a que Ranci\u00e8re (no <em>Espectador emancipado<\/em>) preconizava como um est\u00e1gio ut\u00f3pico de participa\u00e7\u00e3o onde \u201cos diferentes tipos de espet\u00e1culo se traduziriam uns nos outros, demandando espectadores que s\u00e3o interpretes ativos, se apropriam das hist\u00f3rias e escrevem suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias a partir daquelas\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Alessandra Vannucci A fama do Boal consagrou-se internacionalmente na d\u00e9cada de 70, com o livro Teatro do Oprimido e outras est\u00e9ticas pol\u00edticas, traduzido em v\u00e1rias l\u00ednguas, escrito quando o diretor trilhava caminhos experimentais na pr\u00e1tica de um teatro que&hellip; <a href=\"https:\/\/blogs.law.columbia.edu\/critique1313\/alessandra-vannucci-augusto-boal-o-teatro-como-ferramenta-para-criar-uma-comunidade\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1641,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[52291],"tags":[],"class_list":["post-381","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-posts-4-13"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.law.columbia.edu\/critique1313\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/381","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.law.columbia.edu\/critique1313\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.law.columbia.edu\/critique1313\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.law.columbia.edu\/critique1313\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1641"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.law.columbia.edu\/critique1313\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=381"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.law.columbia.edu\/critique1313\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/381\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.law.columbia.edu\/critique1313\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=381"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.law.columbia.edu\/critique1313\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=381"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.law.columbia.edu\/critique1313\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=381"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}